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O pensamento filosófico e as descobertas físicas
   
Por Flávio da Costa Gonçalves

Aristóteles acreditava que a natureza de qualquer coisa era a de voltar a sua origem dentro de uma classe de quatro elementos (ar, água, terra e fogo). Por exemplo, a chuva caía porque tendia a voltar ao seu “lugar natural”, a terra, assim como a fumaça subia, porque seu lugar natural era o ar.

O exemplo citado acima mostra que a influência da filosofia nas descobertas e no pensamento científico tem sim alguma importância. Toda a Física estudada durante a Grécia Antiga tinha como propósito comprovar teorias filosóficas dos grandes nomes do pensamento humano. O pensamento humano a cerca dele e da natureza que o cerca, de certa forma, sempre tentou mostrar o quão perfeito os dois eram. Este pensamento levou por muitos anos ao banimento dos números irracionais, bem como das ideias que mais tarde levariam Newton a formular o cálculo diferencial e integral. Tudo isso porque eles eram considerados imperfeitos, em total oposição a Natureza. Com este pensamento, a teoria geocêntrica ganhou poder, sobretudo por mostrar que homem e natureza eram tão perfeitos que seriam o centro do Universo.
   

Copérnico contrapôs esta teoria alguns séculos depois, mas sofreu com a ira da Igreja. E Galileu Galilei ainda mostrou que Copérnico estava certo, a Terra era mais um dos planetas que giravam ao redor do Sol. Condenado a prisão domiciliar perpétua por esta afirmação, Galileu não só mostrou que estava correto, como ainda mostrou que o homem não é tão perfeito assim, se o compararmos com alguns aspectos da Natureza.

Mas não só os pensamentos e ideias filosóficas nortearam de alguma forma o pensamento cientifico. A religião também foi responsável, ainda que indiretamente, por algumas descobertas importantíssimas para a Física. Talvez o exemplo mais forte desta influência seja o fato de todo o trabalho de Isaac Newton sobre a gravitação universal ter sido feito para provar cientificamente a existência de Deus. Explica-se: Newton era extremamente religioso, estudou a bíblia na adolescência e queria resolver os enigmas que nela existem com a ciência. E assim como o Deus, a gravidade é onipotente e onipresente, fato que aumentou ainda mais o interesse o próprio Newton a cerca de suas características e de toda a ciência da época. Afinal, esta poderia ser uma prova da existência de Deus?

Quase na mesma época de Newton, a influência da Igreja e do pensamento de perfeição do homem levou os matemáticos cristãos criarem mais um sistema de referência para medir o ângulo: o grado. A produção científica praticamente parou em toda a Europa durante a Idade Média, ficando então toda ela a cargo os cientistas árabes, em particular cientistas indianos e persas. Estes haviam criado sistema de graus, levando em conta o tempo que a Terra demora em dar uma volta completa ao redor do Sol é de aproximadamente 360 dias. Assim, dividindo-se este arco em partes, chegou-se ao que hoje é largamente utilizado. Mas os cristãos não aceitaram a utilização dos graus para medir o ângulo por causa de uma sutileza: o primeiro quadrante ia de 0° a 90°. Assim, o ponto na vertical em que Cristo havia sido crucificado corresponderia a um número que não poderia ser perfeito. O que os cristãos fizeram foi simplesmente adotar 100° como o primeiro ponto na vertical do arco. Portanto, o grado é uma divisão de 1/400, enquanto o grau é 1/360. Apesar dos assassinatos que ocorreram por causa dele, os cristãos não conseguiram emplacar seu sistema.

Mais recentemente, Albert Einstein revolucionou a ciência com sua teoria da relatividade e toda a previsão sobre o espaço e o tempo. O que antes era uma concepção absoluta, agora era relativo e dependia do observador. E não apenas isso, já no século XXI, o LHC pode comprovar experimentalmente que o bóson de Higgs existe, o que traria mais algumas discussões interessantes para a filosofia e para a Física. Rapidamente, o bóson de Higgs é a partícula que teoricamente dá origem as partículas elementares. Se a existência dela for realmente comprovada, a teoria do criacionismo ficaria abalada, já que a criação das partículas comprovadamente não estaria mais a cargo de Deus, mas de uma partícula que surgiu no Big Bang há uns 14 bilhões de anos (obviamente que outras questões não menos importantes surgiriam, como quem criou o Big Bang?, Como ele surgiu?, Como foi criado o bóson de Higgs?).

De qualquer forma, não se pode deixar de lado o fato de que a ciência é de alguma forma influenciada pelas questões e pensamentos da filosofia, já que os cientistas, independente da área em que trabalham, sofrem alguma influência da sociedade, comunidade em que vive, suas concepções morais, etc. Evidentemente que durante suas pesquisas, dificilmente um pesquisador perceberá a influência que a filosofia tem sobre ele. Mas ela está por lá.


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