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| O efeito Wow! |
| Por Flávio da Costa Gonçalves |
| Muitas teorias
surgiram a respeito do Efeito WOW. A maioria delas defendia que
o governo americano escondia do mundo que mantinha contato com
seres extraterrestres há muito tempo e que um destes contatos
acabou sendo "flagrado" por acaso, originando o Efeito WOW!. Mas
o que vem a ser o conhecido "Efeito WOW"? O Efeito Wow! foi uma recepção de sinais de rádio, ocorrido em 1977 nos Estados Unidos. A forma como esses sinais foram recebidos pelos radiotelescópios da época geram controvérsias até hoje, mas muitos cientistas tratam esse efeito como uma forte evidência de vida inteligente em outros planetas. Neste texto, vamos conhecer a história deste efeito e as opiniões do mundo científico a respeito dele. Mas, independente de cada opinião, talvez a melhor máxima sobre as evidências científicas do tipo do efeito wow, é: "a ausência da evidência não significa evidência da ausência." |
No dia 19 de agosto de 1977, o Dr. Ehman estava checando as saídas impressas do computador para ver o que tinha acontecido nos dias anteriores. O volume de dados era gigantesco, de modo que não dava para fazer tudo simultaneamente. Olhando uma das folhas impressas ele notou o seguinte código: “6EQUJ5″ no canal 2 do telescópio. Isso significava que um forte sinal em rádio, com uma banda em frequência bem estreita vinda de uma região bem pequena do céu, havia sido detectado. Impressionado com isso, Ehman circulou o código e escreveu UAU! (WOW! no original) em vermelho. Ele continuou a análise dos dados dos outros dias, especialmente procurando por uma repetição do sinal, já que a mesma região do céu era observada a cada dia. Mesmo não tendo encontrado uma repetição do sinal, Ehman comunicou a descoberta aos seus colegas John Kraus e Bob Dixon, que passaram a chamá-lo de “sinal Uau!”.
O sinal foi detectado às 23h16min da noite de 15 de agosto na frequência de 1420.4556 MHz, o que corresponde à famosa linha de 21 cm do hidrogênio, vindo da direção da constelação de Sagitário.
Esse sinal passa por todos os testes para classificá-lo como vindo de uma civilização extraterrestre tentando contato com alguém. Ele era intenso, vinha de uma fonte de pequenas dimensões do céu, tinha uma banda bem estreita e estava na frequência da linha de 21 cm do hidrogênio, que é a linha sugerida para se procurar por sinais assim.
O hidrogênio é o elemento mais abundante do Universo; se alguém deseja estudar o material mais abundante do Universo, vai ficar observando essa linha. Então, se você quiser que alguém detecte um sinal seu, é melhor escolher uma frequência em que você sabe que vai ter alguém escutando. A escolha mais natural é a linha de 21 cm do hidrogênio.
Então por que ninguém admite que temos um sinal de vida inteligente fora da Terra desde 1977? Por que esse sinal falha em um único ponto, justamente o mais crítico: ele não se repetiu. Ehman, Kraus e Dixon procuraram uma repetição do sinal por meses a fio usando o mesmo Orelhão, mas não obtiveram nenhuma resposta.
Anos mais tarde, os radioastrônomos Robert Gray e Kevin Marvel decidiram procurar esse sinal. Eles nunca ficaram convencidos que se tratava de um sinal espúrio, provocado por ruído. De fato, o próprio método de observar deixa poucas dúvidas da origem celeste do sinal. Como o Orelhão ficava parado e as fontes é que corriam por sobre suas cornetas, um sinal celeste (não necessariamente de vida inteligente) tem um padrão de intensidade quando detectado. Ele deve crescer do zero até atingir um máximo e depois cair a zero novamente, seguindo um perfil bem específico. Isso aconteceu com o sinal Uau e durou exatamente 72 segundos, o tempo em que a fonte no céu leva para percorrer o campo de detecção de uma das cornetas (chamado de feixe). Esse fato descarta um sinal de interferência vindo da Terra, ou mesmo de algum satélite em órbita baixa.
Em 1995 e 1996 Gray e Marvel usaram o radiotelescópio VLA, um conjunto de 27 antenas com 25 metros de diâmetro cada, o que dá uma sensibilidade 100 vezes melhor que a do Orelhão. Eles varreram uma área no céu correspondente às coordenadas do sinal original, inclusive com uma grande margem de erro.

Radiotelescópio VLA
Observando
em uma banda mais larga que em 1977, foram encontradas duas fontes
de rádio com características normais para uma fonte extragaláctica,
mas principalmente nada de variações de brilho. Partiram então para
uma procura por fontes em banda estreita, tal como foi a detecção
original, e nesse caso foi ainda pior: nada de fontes. Conclusão,
nenhuma fonte com emissão com duração entre 5 e 20 minutos foi
encontrada.
Então não há nada que comprove esse sinal, certo? E se a fonte
emitisse periodicamente em um ciclo de várias horas, como se fosse
um farol de navegação?
Bom, lá foi Robert Gray para o radiotelescópio da Universidade da
Tasmânia investigar essa possibilidade. Entre março e outubro de
1997, ele e Simon Ellingsen examinaram a direção do sinal Uau por 10
noites, sempre em sessões de no mínimo 14 horas contínuas.
Os resultados foram decepcionantes de novo, nada foi detectado. Na
pior das hipóteses, durante uma única sessão de 14h, haveria 30% de
probabilidade de se detectar um sinal de 48h de período, ou seja, se
o sinal levasse dois dias inteiros para se repetir. Com três dessas
sessões, a probabilidade salta para 80%. Sinais com períodos menores
teriam ainda mais chances de ser detectados. Para um sinal periódico
não ser detectado por essa metodologia, ele teria de ter um período
de vários dias. É possível?
Sim, mas nesse caso é de se pensar na imensa sorte de alguém ter
detectado um sinal que se repete somente depois de mais de três
meses, já que durante esse tempo a região foi monitorada dia após
dia.
Então, o que teria causado esse sinal? Vinte anos depois, o próprio
Ehman listou as possibilidades. Dentre elas, planetas e asteróides
podem ser excluídos, bastando olhar suas posições. Uma transmissão
de satélite também é improvável, pois a freqüência de 1420 MHz é
protegida. Existe um acordo mundial para que essa frequência nunca
seja usada por ninguém, pois ela é muito importante para a
astronomia. Mas e se alguém ali por perto do radiotelescópio
resolvesse mandar uma mensagem ao espaço justo naquela hora? Também
parece improvável, pois o sinal teria de ser apontado direto para
que o Orelhão o detectasse. Além do mais, o sinal se comportou
exatamente como o esperado para uma fonte astronômica, o que também
exclui um sinal de rádio vindo de um avião.
E se esse sinal tivesse sido transmitido da Terra e tivesse sofrido
uma reflexão no lixo espacial em órbita da Terra? Nesse caso, teria
de ser um pedaço de metal. Até aí tudo bem, mas ele teria de estar
em uma órbita muito alta, e pior, não poderia ter rotação alguma.
Essas duas características, especialmente a última, são bem
improváveis de acontecer com um pedaço de lixo espacial. Um efeito
produzido por lente gravitacional duraria mais tempo, e a cintilação
interestelar (um tipo de cintilação parecido com aquela que vemos no
céu) só corrobora a idéia de que o sinal tem origem no espaço
distante.
Depois de listar todas essas possibilidades Ehman admite que ele só
consegue imaginar um sinal emitido por alguma civilização
inteligente. Mas por que não admitir isso? Nas palavras dele
(traduzidas por mim): “Porque eu sou um cientista, e como tal eu sei
que essa hipótese só seria aceitável se eu e outros colegas também
detectássemos esse sinal mais vezes”.
Em um dos seus últimos livros, Carl Sagan também fala desse sinal, e
ele admite que nunca houve um evento que se aproximasse tanto de um
sinal de vida inteligente extraterrena. Mas ele também diz que, de
acordo com o método científico, não poderia admitir isso até que o
sinal se repetisse e mais pessoas pudessem detectá-lo. Depois de
conjeturar e eliminar as possibilidades acima, Sagan sugere que
tenha sido algum satélite espião que tenha usado a frequência
protegida do hidrogênio para transmitir alguma informação. Usando
essa frequência, o sinal poderia ser confundido com emissão do
hidrogênio. Essa violação do acordo é bem possível, afinal de contas
os procedimentos de espionagem não são divulgados por aí, nem mesmo
os detalhes das órbitas dos satélites espiões são conhecidos.
Porém, é preciso cautela. Somente com um evento detectado não dá
para tirar conclusões tão profundas. Também é possível que a
explicação do Sagan não seja tão fantasiosa assim. Não dá para
garantir que os militares americanos seguiriam um protocolo de
intenções proposto por astrônomos, ainda mais na década de 1970.