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A relação entre as mulheres e a Física
 
   
Por Flávio da Costa Gonçalves

Apesar das inúmeras contribuições femininas para a Física, as mulheres levaram apenas dois Prêmios Nobel até hoje. Mesmo assim, a contribuição delas ajudou a aumentar os conhecimentos - e o número de descobertas físicas, embora o número de injustiças em premiações seja importante.

A Física não tem sexo certo? Se levarmos em conta o número de mulheres que já ganharam um Prêmio Nobel, veremos que esta questão se torna ainda mais interessante. Desde a criação do Prêmio, apenas duas (isso mesmo, duas) mulheres já foram laureadas, ainda assim, em parceria com homens. O número reduzido muito se deve, é verdade, a pouca presença feminina na ciência em geral, seja porque a maternidade e o casamento coincidem com o auge profissional das mulheres ou porque muitas mulheres preferem outros ramos por acreditar que a Física não é um bom lugar para elas.    


A história das mulheres de renome na Física começa no início do século XX, mais precisamente em 1900. Maria Sklodowska Curie, mundialmente conhecida como Marie Curie (1867-1934) foi laureada em 1903 por suas pesquisas em radioatividade. O Prêmio foi dividido com seu marido Pierre Curie e Becquerel. Neste caso, tanto o papel Pierre quanto o de Becquerel foi fundamental nas descobertas realizada por ela. Entretanto, algumas injustiças relacionadas ao trabalho feminino fizeram parte do processo de escolha do Nobel desde então. E algumas injustiças foram tão gritantes que causam incômodo até hoje.

Injustiças como as cometidas contra três mulheres em especial. A primeira delas foi a física alemã Lise Meitner. Judia, Meitner foi obrigada a fugir da Alemanha Nazista no auge de suas pesquisas em Físsão Nuclear. Resultado: seu colega Otto Hahn levou o Nobel pelos estudos. Outro exemplo de injustiça no reconhecimento do trabalho feminino foi o que aconteceu com a chinesa Chien-Shiung Wu. Chien trabalhava nos Estados Unidos quando mostrou que a paridade poderia ser quebrada com interações fracas. Aqui é importante abrir um parêntese: esta possibilidade já havia sido prevista teoricamente pelos físicos Yang e Lee, compatriotas de Chien. Entretanto, considera-se uma teoria física válida apenas quando é comprovada experimentalmente. E foi o que Chien fez: comprovou através de um experimento que a teoria de Yang e Lee era válida. Mas isso não foi o suficiente para que a chinesa fosse laureada. Somente Yang e Lee levaram o Prêmio.

A esquerda da imagem, a alemã Lise Meitner, preterida na premiação de 1946; no centro, a chinesa Chien-Shiung Wu, que apesar de ter criado o experimento que comprovou a teoria da quebra da paridade, não levou o prêmio. A direita, a inglesa Jocelyn Bell, que realizou importantes descobertas no campo da Cosmologia e que viu seu prêmio ir parar nas mãos de seu professor.
 

Mas o caso que mais chamou a atenção por deixar uma mulher de fora de uma premiação foi o ocorrido com a inglesa Jocelyn Bell, então estudante de Astrofísica em 1964. Bell trabalhava na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, sob supervisão do Dr. Antony Hewish com o estudo das ondas de rádio provenientes do Sol e sua influência na observação de outras estrelas.

Enquanto realizava seus a análise dos resultados de uma observação, Bell notou uma pequena sucessão de sinais periódicos, pulsos, separados entre si por cerca de 1,5 minutos. Sinais com esse tipo de periodicidade são considerados como ruído proveniente de algum artefato humano - uma transmissão de rádio, por exemplo. Ao receber o relato de Bell, o Dr. Hewish, acreditou que esses dados estavam corrompidos (justamente por achar que eles eram provenientes de uma ação humana) e achou melhor não perder tempo com eles. Mas, Bell argumentou que o aparecimento dos pulsos coincidia com o "tempo sideral", um intervalo característico do movimento diurno das estrelas.

Como tal periodicidade coincidia com este intervalo e isso só foi observado até então por equipamentos que envolviam ação humana, suspeitou-se que os sinais pudessem ser provenientes de alguma civilização extraterrestre.

As pesquisas continuaram com ainda mais força, muito mais devido ao ceticismo de muitos pesquisadores de Cambridge (ironicamente chamaram a fonte destes sinais de “Little Green Men”, ou pequeno homem verde, um duende). Foi quando Bell descobriu outra fonte de pulsos, vindos de outra parte do céu, com um período um pouco menor, de 1,2 minutos. Agora teríamos duas civilizações mandando sinais para nós, terráqueos. O que começou com um pensamento totalmente cético, mostrou-se surpreendente: os sinais vinham de estrelas. Um estudo mais aprofundado mostrou que as fontes eram estrelas de nêutron em rápida rotação. Esse tipo de objeto passou a ser conhecido como "pulsar" e revelou-se muito importante para estudar alguns fatos cosmológicos.

Agora, adivinhe quem ficou com o Nobel pela importante descoberta? Sim, foi Dr. Antony Hewish o ganhador do Nobel em 1974 pela pesquisa com raios cósmicos. Jocelyn Bell ficou a ver navios (ou estrelas) e não recebeu qualquer prêmio ou mesmo reconhecimento oficial pelas suas descobertas.

Estes exemplos de injustiça contra as mulheres ilustram o quanto as mulheres tem um papel secundário quando o assunto é reconhecimento por suas contribuições para a ciência, desde a presença nos congressos internacionais mais famosos até o reconhecimento por artigos ou trabalhos que podem render frutos. Não que o trabalho masculino não mereça reconhecimento ou que não seja tão bom assim. Mas as mulheres merecem mais “carinho” com o seu trabalho.

Em tempo: a última mulher a levar um Nobel foi Maria Goeppert Mayer (1906 - 1972), por descobertas relacionadas à estrutura das camadas nucleares. E mais uma vez, ela levou o prêmio em conjunto com outro homem, o físico alemão J. Hans D. Jensen.





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